Gloria Steinem é uma das mulheres mais influentes do movimento feminista. Ela passou a vida como ativista, levantando fundos para as causas nas quais acredita e viajando muito no processo. As décadas de trabalho e estrada se tornaram o livro lançado recentemente (mas ainda sem data para sair no Brasil) “My life on the Road”. Hoje com mais de oitenta anos, Steinem relembra momentos históricos do feminismo, da política norte-americana, da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e traz anedotas pessoais, sempre em rápidas lembranças e curtos capítulos, sem uma cronologia obrigatória.

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Com ela, acompanhamos os altos e baixos de uma vida sem residência. Durante sua infância, ela, a irmã e a mãe acompanhavam o pai em intermináveis viagens pelas estradas dos Estados Unidos comprando e vendendo antiguidades e joias.  A vida na estrada ensina muitas coisas, mas a perspectiva de uma feminista – e em especial dessa feminista, é bem esclarecedora.

Quando eu viajo sozinha, como Gloria passou anos fazendo, sempre me perguntam “mas não é perigoso por você ser mulher?”. Já respondi essa pergunta mil vezes e de tantas maneiras diferentes… mas Steinem deu a explicação que eu mais gostei até agora:

“(…) foi o feminismo moderno que teve de fazer a dura pergunta: [perigoso] comparado com o quê? Seja por assassinatos cometidos por maridos na Índia, matanças por honra no Egito, ou violência doméstica nos Estados Unidos, os registros mostram que as mulheres têm mais probabilidade de sofrerem abusos ou serem assassinadas por homens que elas conhecem. Em termos de estatística, o lar é um lugar ainda mais perigoso para uma mulher do que a estrada.

Talvez o ato mais revolucionário para uma mulher seja a jornada sozinha por iniciativa própria – e ser bem recebida quando voltar para casa”.

Gloria viveu sua vida de acordo com essas palavras. Depois dos estudos, rompeu o noivado com um homem de quem estava grávida (e fez um aborto ilegal – ela dedicou o livro ao médico que fez o procedimento) e foi passar dois anos estudando na Índia. Lá, aprendeu lições sobre auto-organização política e debates no âmbito local. Sua paixão por esses encontros aparece clara no livro e, não à toa, apresenta lições para a nova geração de ativistas de Facebook.

Durante as décadas retratadas na auto-biografia, acompanhamos debates sobre feminismo, sobre a discriminação que mulheres lésbicas sofrem (inclusive no movimento) e sobre o feminismo negro, apesar de Gloria ser branca e padrão, privilégios que ela não deixa de reconhecer.

Mas isso não é tudo. Ela ainda fala de maneira profunda sobre doenças mentais como a depressão que sua mãe sofria. Fala de maneira delicada e doce sobre a morte. E dá uma verdadeira lição sobre cultura e história dos povos indígenas norte-americanos. A ponto de nos deixar buscando bibliografias e histórias do povo indígena sul-americano e brasileiro (aceito sugestões!).

“Honey if men could get pregnant, abortion would be a sacrament!”

Taxista em Boston, nos Estados Unidos

O livro de uma das mais prestigiadas feministas não tem como não se tornar um clássico do feminismo. E esse é. Tive que me segurar para não grifar coisas demais (se tiver curiosidade, tudo que eu grifei você pode encontrar aqui). Ela conseguiu levar para o papel sua paixão pelo ativismo e, se você tem um pouco dessa vontade revolucionária, vai ser contagiada, com certeza.

Posted by:Amanda Previdelli

Jornalista, paulistana e geminiana. Já estudou desde Política Internacional a Yoga e Astrologia. Compra brigas nas redes sociais e mesas de bar, mas gosta também de viajar e conversar.

2 replies on ““My life on the road” e um livro de memórias feministas

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