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A Alice mora perto-pertinho do ex-namorado. Aquele lá, que está de namorada nova. Ela sempre se arruma muito na hora de sair, que é para estar linda se por acaso encontrar com ele.

A primeira vez que ela encontrou com o moço, ele estava sozinho na rua e, virando esquina, eles quase se trombaram. Ele, saído do metrô ou do trabalho, de trajes sociais e cara de homem sério. Ela, como não poderia deixar de ser, horrorosa. Alice encontrou com o moço saída de uma corrida de rua, meros quatro quilômetros que a deixaram rosa, ofegante e fungando muito. Vale notar que ela não é da moda fitness. Alice corre de bermudão, tênis branco (na verdade preto porque está sujo), cabelo preso com aqueles fiozinhos de bebê estragando o penteado e a camisa velha e rasgada da faculdade. Nada combinando, nada sensual. Deu um tchau com o queixo (sabe, aquela levantadinha de queixo à guisa de oi?) e seguiu sua vida querendo se enterrar no próximo buraco.

Na segunda vez que ela encontrou com o moço foi em um supermercado. Saindo do trabalho, Alice estava bem vestida, até maquiada. Só que, mulher trabalhadora que é, aquela cara de cansaço. Aquele look vim-comprar-queijo-e-vinho-e-morrer-na-poltrona-de-casa. Conhece? Ela chegou no supermercado, pegou a cestinha enferrujada e, três passos dentro do estabelecimento, viu no fundo do corredor o casal. Ele e ela, a tal da namorada nova, escolhendo um queijo (era gouda; com ela ele sempre comprava brie), com um vinho já em mãos (‘branco? sério?’). Só que o look deles de queijo-e-vinho era outro totalmente. Alice praticou o tradicionalíssimo meia volta volver e fugiu. Todo o processo de chegada e evasão deve ter durado nem um minuto. Acharam que ela era doida.

Nunca mais viu o moço. Ele se mudou de bairro, parece. Ela também. Há umas duas semanas, porém, Alice cruzou com ele na esteira do metrô. Ele indo para a linha verde, ela para a amarela. Ele com a namorada abraçada, a mesma de anos atrás. Ela, de cabelo comprido e vestido curto. De cara lavada e unha toda roída. Ele a viu. Ela, desatenta, cantava baixinho alguma música qualquer da Nina Simone. Nem percebeu.

 

Posted by:Amanda Previdelli

Jornalista, paulistana e geminiana. Já estudou desde Política Internacional a Yoga e Astrologia. Compra brigas nas redes sociais e mesas de bar, mas gosta também de viajar e conversar.

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