Quando a Alice nasceu ela era um daqueles poucos bebês realmente fofinhos: rosada, meio carequinha, gordinha e aquelas bochechas que nunca a abandonariam durante a vida.

Foi a avó dela que, com lágrimas nos olhos, reparou.

– Olha os pés da Alice. É normal?

– Não, não é. E não tem nada que a gente possa fazer além de torcer para que ela não fique assim para sempre.

Mas ela ficou assim para sempre. O pé direito sempre meio atrás, plantado no chão, e o esquerdo nas nuvens. Era uma condição rara – normalmente os dois pés ficam nas nuvens ou apenas um fica mais atrás enquanto o outro é “normal”. Com a Alice era assim: um pé atrás e outro distante.

Enquanto era criança, a condição de Alice não a afetou tanto. Ela tinha uma imaginação aguçada, mais do que o normal. Mas era cética. Imaginava vampiros e pensava em maneiras de se proteger deles, mas desconfiava da existência do papai noel. Estranha.

– Culpa dos pés, tadinha…

Mais velha, aí sim os problemas começaram a aparecer. Não é fácil se apaixonar ou mesmo se relacionar quando se tem pés ambíguos. Ambíguos e incoerentes.

Quando um moço era romântico, o pé direito clamava por cautela e desconfiava – ela não se deixava levar. Às vezes, era o esquerdo que ganhava e um simples sorriso de um outro homem fazia com que ela se apaixonasse perdidamente.

– Desculpa, moço, qual o seu nome? Meu pé esquerdo te ama.

E mesmo quando namorava, era um embate eterno. Havia dias que ela sentia estar apaixonada e outros em que era tão indiferente. Às vezes mesmo quando o moço dormia abraçado nela, o pé direito coçava e ela precisava sair de perto, ir para a sala e dormir um pouco sozinha. Outras vezes estava ao lado dele em um bar e ele sorria de uma piada dela, dizia uma palavra gentil e colocava a mão no seu rosto. Aí o pé esquerdo voava, ia longe, e a levava junto.

Até que ela conheceu o Miguel, um moço com os dois pés nas nuvens (como pode? como vive? como suporta tanto voar?). E o pé direito perdia de três a um todos os dias.

Posted by:Amanda Previdelli

Jornalista, paulistana e geminiana. Já estudou desde Política Internacional a Yoga e Astrologia. Compra brigas nas redes sociais e mesas de bar, mas gosta também de viajar e conversar.

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