protestos

Desculpa o texto enorme! E desculpem quaisquer erros, ainda tô tensa. Quem quiser ver no twitter: @aprevidelli

A polícia estava errada

É o seguinte, eu estava na manifestação de hoje, que saiu do Teatro Municipal, no centro de São Paulo. Já venho com a ressalva: eu não sou especialista em táticas de dispersão ou de guerra ou de sei lá. Eu sou uma jornalista e só tenho minhas experiências para definir o que é covardia, o que é baderna, o que é ato provocativo.

Essas minhas experiências e o que eu vi com os meus próprios olhos (ouvi relatos terríveis, mas só posso falar do que vi) só me permitem dizer que eu estava no meio de uma passeata pacífica (no começo da passeata, vi apenas um ato de vandalismo. Um moço saiu correndo, quebrou o vidro de um prédio. Ele foi extremamente vaiado por todo mundo e sumiu no meio da manifestação) quando começaram a jogar bombas de gás lacrimogêneo em milhares de pessoas que, paradas, gritavam coisas como “sem violência”, ou “quem não quer aumento sai do chão” e pulavam.

Sabe por que chama bomba de efeito moral? Porque quando, de maneira inesperada, jogaram uma dessas perto de mim e das pessoas armadas com cartazes ao meu redor, até o maior do brutamontes estava chorando (lacrimejando). E aí o pessoal começou a correr, tentando dispersar. De trás da passeata, mais uma bomba. Correr pra onde, então? Nessas horas você perde a coragem jornalística ou o que quer que seja e pensa “quero ir pra casa”. Mas eu não tive essa opção, não tinha por onde ir que não tivesse fumaça.

Meu amigo pensou rápido e falou “vamos sair da rua, vamos pra praça Roosevelt”. O raciocínio era: eles só não querem que a gente perturbe o trânsito, vamos dar o que eles querem. Com tanta gente na praça, achei que fosse parar (achei que fosse parar em muitos momentos naquela noite). Não parou. Jogaram uma bomba na praça. E aí?

Peguei minha amiga e segui o instinto de subir. O gás é denso, ele desce, quanto mais alto eu estiver, melhor. Me perdi do meu amigo. Uma galera foi pro túnel, que também estava cheio de gás. Eu comecei a subir em direção a uma das vias menos movimentadas. Achei que fosse parar. Não parou. E a galera o tempo todo gritando “sem violência”.

Atrás de mim caiu uma bomba, só vi a fumaça. Virei, na minha frente caiu outra, cheguei a vê-la bem perto. Peguei a mão da minha amiga e um moço abriu a porta de um motel pra algumas das pessoas. Às cegas, a gente continuou subindo e se abrigou no alto do motel. Muita água no rosto, joguei vinagre na camisa. Agora entendi porque a galera que levou vinagre havia sido detida – essa galera sabia o que estava fazendo.

Ficamos lá por um tempo, o boato era que estavam prendendo as pessoas que saíam do motel. Lá dentro, vi gente machucada pelas balas de borracha. Não é bonito. Vi gente lavando o rosto desesperada, sem conseguir parar de chorar.

E então saí. Vi uma senhora chorando muito por causa do gás. E duas crianças de doze anos, também.

Fui subir a Augusta atrás das manifestações. Foi só a partir desse momento que comecei a ver depredação por parte dos manifestantes. REPITO: só depois da briga na praça Roosevelt que vi gente depredando mesmo. Subi a Augusta e as coisas começaram a ficar mais feias, já que estava claro que eram muitos policiais, muito armados e muito preparados contra uma galera dispersa, despreparada e desarmada.

Subindo, em algumas ruas dava pra ver as barricadas de fogo. De verdade, não foi o que mais me impressionou. O que mais me impressionou foi quando o Choque se adiantou a nós, incomodados com o barulho que o pessoal fazia, e ameaçou. Apontou a .12 (de balas de borracha) para o aglomerado de duas dúzias de gente desarmada e lançou gás. As pessoas tremiam de medo. Algumas gritavam contra a polícia, e gritavam “sem violência”.

Na Augusta, sei que a galera que estava na frente do choque tinha garrafas – vi UMA sendo jogada. Nada de coqueteis molotov, a não ser que tenham sido coquetéis mal sucedidos. Na subida, um moço gritava contra a PM. Eles pararam, e foram calar esse cara. Conversando só, mas aquela conversa com a .12 na mão, sabe como é. Quando um grupo de uns cinco se juntou pra gritar, o PM gritou mais alto, mais grosso, e apontou aquela quase espingarda. Todos se calaram, eu tremi na base. Aí ele disse, irônico: “quero ver o bocudo agora”.

Então eles subiram até a Paulista, eu achei que tinha acabado. Não tinha. O Choque se virou e ficou de frente pra galera que estava subindo atrás dele, aquela mesma galera composta por jornalistas e alguns manifestantes desarmados. Ninguém jogou nada, o pessoal só gritava. Pedia “sem violência”.

Uma pessoa se destacou. Uma professora, usando camiseta rosa choque, gritava pedindo paz, pedindo o fim da violência, gritava que era professora, as pessoas aplaudiram. A PM jogou gás na gente. Mais de uma vez. Todo mundo lacrimejando. Uma hora, eu ouvi: “eles vão vir!”. E aí foi uma das horas mais tensas. Eles começaram a bater forte no escudo e desceram a Augusta correndo.

Muita gente tentou fugir, mas pra onde? Como sempre, eu não conseguia entender para onde eles queriam que a gente fosse. Em vários momentos quis colaborar, dispersar pra onde eles quisessem, mas parecia que só queriam jogar bomba na gente. Não tínhamos para onde ir.

Quando desceram, foram abordando as pessoas. Não vi nenhum PM agredindo ninguém, mas eles não foram nada gentis. Para ficar claro: a tal da professora de rosa choque foi obviamente um alvo deles. UM PM foi direto pra ela, gritando: “Você. Eu quero você”. E foram empurrando a professora até uma viatura.

Outro tentou fazer o mesmo comigo, eu gritei que era imprensa. Achei que ele fosse me levantar pelo braço. Lembrando da dica que ouvi de um colega, gritei que era da “grande mídia”. O moço me soltou, mas nem sei se ele me ouviu. A professora da rede municipal não teve tanta sorte. Nem outros colegas jornalistas, pelo que leio agora.

Os manifestantes, que sempre gritavam “sem violência”, passaram a gritar “solta”, em defesa da professora. Ela foi presa. Saiu de viatura.

Depois disso, achei que fosse acabar. Não acabou. A Paulista virou um palco de tiro ao alvo dos PMs. Eles jogavam gás, iam para aquela direção, viravam, jogavam mais gás. Tinha aglomerado de jornalista? Não sei, não importa. Cinco pessoas já era motivo pra jogar bomba. Deve ter ficado bonito na TV, os cruzamentos com as barricadas de fogo e a Paulista com bombas. Não foi bonito ao vivo.

E ficou nisso, até dispersar. Choque jogando bomba, marchando, cavalos chegaram. Tinha horas que eu não acreditava que aquilo ainda estava acontecendo. As bombas eram direcionadas a pouquíssimas pessoas, mas atingiam muitas.

Sei que está longo o texto, mas se for para ler uma parte: a polícia estava errada. A maioria dos manifestantes era pacífica e sofreu sem avisos com bombas de gás lacrimogêneo. Jornalistas foram presos, ameaçados (não verbalmente, mas eu me senti muito ameaçada, sim). As pessoas não tinham saída, as bombas de gás vinham de todos os lados, afetaram até quem não sabia da manifestação. A depredação começou depois, bem depois do desespero e do pânico das primeiras bombas.

Relendo meus tuítes do protesto, acho até graça. Pareço uma menina ingênua falando sobre trajetos e cantos dos manifestantes. De repente, bombas. É uma escalada de violência, por parte da polícia.

Sei que houve manifestantes agressivos, mas nada justifica o que fizeram com a absurda maioria dos manifestantes em paz. Sei que o PM cumpre ordens, acredito que ele não esteja preparado para lidar com protestos do gênero em São Paulo. Isso precisa ser dito. Mas o que quero que guardem: tinha todo tipo de gente por lá. Gente trabalhando, gente trabalhadora, jovem, idoso. Praticamente todos pacíficos e exercendo o direito garantido à manifestação pacífica. Gente cantando. Gente que podia ser seu amigo ou da sua família. E cercaram essas pessoas de bombas.

(link original: http://on.fb.me/I5nGi8)

Posted by:Amanda Previdelli

Jornalista, paulistana e geminiana. Já estudou desde Política Internacional a Yoga e Astrologia. Compra brigas nas redes sociais e mesas de bar, mas gosta também de viajar e conversar.

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